Nas últimas semanas percorri algumas áreas do nosso querido cerrado, por diferentes cidades e estados. É importante destacar que já estive em outras oportunidades nestas regiões, mas um fator me chamou muito a atenção nestes últimos dias, o grande número de queimadas florestais. Talvez isso tenha despertado meu interesse porque nas outras ocasiões o período era chuvoso, quando o número de queimadas é obviamente menor. Esta situação, no entanto, facilita o meu diagnóstico, já que tenho a visualização destes locais “antes e depois”. Coopera para essa visão crítica o fato de, nos trabalhos que desenvolvi nesse período, ter sido exposto a alguns dos fatores que provoca essa situação. É exatamente sobre esta influencia que pretendo dissertar neste artigo.
Como paulistano “da garoa”, o que justifica o espanto ao me deparar com cenários deste tipo, e defensor do meio ambiente, tenho como prática aproveitar o tempo perdido com o deslocamento terrestre e aéreo para notar as variações da vegetação, entradas de frentes frias, variantes da temperatura, condições do relevo entre outros aspectos ambientais, fatores que aumentam (via de regra) a sensibilidade na percepção da existência destas situações. Mas indo ao que interessa, como mencionei, um dos trabalhos realizados se referia à atuação em situações de emergência de empresas constituintes do PAM (Plano de Ajuda Mútua) sobre incêndios florestais em uma determinada região, uma vez que nestas épocas mais secas tais queimadas são extremamente comuns em matas do cerrado.
Até aí tudo bem, mas a coisa muda de figura quando há situações de acionamento do corpo de bombeiros e o “dono” do incêndio reclama da atuação destes com frases do tipo, “- Meus amigos, demorei cerca de uma hora para acender esse fogo e vocês vêm apagar?”. É exatamente este o ponto onde o espanto aumenta. Será que de fato apenas o fator “tempo seco” é a causa do número excessivo de queimadas?
Fazendo rápida pesquisa, descobri que a incidência de raios sobre vegetação raramente causa estes efeitos, ocasionados através das conhecidas popularmente como “tempestades secas”. No Brasil, os dados estatísticos destas origens não são consistentes, segundo Soares (1984) raios são responsáveis apenas por 14% dos incêndios considerando estudos de um período de seis anos, os índices de combustão espontânea nem apareceram nesta pesquisa. Pois bem, se raios são a única fonte de ignição natural considerável, como o número de incêndio é tão grande e em uma época que a presença de nuvens é tão rara?
No estado do Mato Grosso, em conversa com algumas pessoas, é fácil verificar a alteração dos campos arbóreos, pois apenas algumas espécies resistem às queimadas nos locais, e mais uma vez aparece o sentimento de espanto, quando a informação de que comunidades indígenas promovem a ignição pra demonstrar descontentamento com a aproximação do “homem branco” sobre suas terras.
Em alguns estados os incêndios controlados são permitidos para limpeza de áreas cultiváveis, no entanto onde há esta prática nos tempos de estiagem, o aumento de casos de doenças respiratórias é considerável. Ou seja, mais um problema. Atualmente esta prática pode ser substituída por tecnologia específica com investimentos de baixo a médio custo, o que me leva a considerar os estados que apresentam legislação proibitiva a esta prática mais evoluídos em relação a esta questão.
As situações de incêndio nos campos do Cerrado são quase sempre causadas pela ação humana, e de acordo com a teoria exposta, em sua maior parte intencional. É comum ainda ouvir que pontas de cigarro acesas são responsáveis pelo incêndio nas beiras das estradas, mas mesmo isso é até certo ponto discutível, uma vez que muitos já tentaram, jogando guimbas acesas no capim seco fazer fogo, com índice de sucesso relativamente baixo. Tais áreas incendiadas são resultado da limpeza de áreas de plantio, considerando sempre a proximidade destas com os focos de incêndio, e os resultados colhidos são muitas vezes acidentes terríveis nas estradas e incêndios em lavouras e áreas naturais.
Além de um problema ambiental, os incêndios florestais também são considerados um problema cultural e social, e muitas vezes o desenvolvimento econômico fala mais alto, principalmente considerando um país em que boa parte da economia é voltada para agricultura de exportação. Autoridades legais procuram demonstrar sua preocupação com o desenvolvimento sustentável por meio de políticas que buscam reverter este quadro, mas é fato que a conscientização e o desenvolvimento social é fator preponderante para propiciar a proteção ambiental, gerando ciclo que visa a efetividade da garantia do direito fundamental de todos os cidadãos ao meio ambiente equilibrado.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
SOARES, R. V.1984. Perfil dos incêndios florestais no Brasil em 1983. Brasil Florestal, 13 (58). Pag. 31-41.
Adriano Simões
Consultor PM Analysis