Rua Barão de Itapetininga, 124 - CJ 122 - São Paulo-SP +55 11 5062-3521 Español English Português

Crise Hídrica - Culpa de São Pedro ou Falta de Gestão?

Gostou? compartilhe!

Crise Hídrica - Culpa de São Pedro ou Falta de Gestão?

Comandar um navio por mares calmos é fácil. Quando a maré é plana, as ondas são baixas e os ventos são brisas os procedimentos padrões funcionam e as decisões se resumem a fazer o que já foi feito. No entanto um capitão é realmente testado quando se depara com uma tormenta, e se vê na obrigação de tomar decisões arriscadas, que às vezes salvam o navio, a tripulação e os passageiros, mas também pode fazer o barco naufragar e levar para o fundo da água todas as pessoas a bordo.

Por mais irônico que possa parecer, a crise de falta de água em São Paulo está fazendo o estado mais importante do Brasil naufragar. Os níveis dos principais sistemas reservatórios de água estão na cota mais baixa da sua história, e a sociedade paulista já sofre os impactos desta situação há muitos dias, sendo que os cidadãos e os comerciantes são os mais afetados.

Há diversas explicações para a falta de água. A começar pela mais óbvia, às vezes chove pouco. Pouca chuva decorre de vários fatores, alguns deles dependentes do comportamento humano, outros nem tanto. É certo que reduzir a vegetação de uma região, impermeabilizar o solo, emitir gases que aceleram o efeito estufa e destruir a camada de ozônio provocam aquecimento global e, consequentemente, modificam as características pluviométricas de uma região. Segundo especialistas os efeitos do aquecimento global são óbvios, e estão ocorrendo muito antes e em intensidade muito maior do que era esperado.

As mudanças climáticas são amplamente provocadas pelo comportamento humano, mas também são influenciadas por fatores que independem da ação antrópica. Por exemplo, é quase certo que a recente escassez de chuva pode ser o efeito de um dos ciclos solares, que neste caso específico tem duração de onze anos, cuja frequência coincide com o 2013, ano em que experimentamos a última grande estiagem na região.

Às vezes chove muito, às vezes chove pouco, e isso não vai mudar nunca, o que muda é a forma como nos preparamos para estas oscilações. Há anos a redução da disponibilidade de água em São Paulo é conhecida e relatada pelos órgãos responsáveis e ligados ao assunto. A empresa responsável pelo abastecimento de água alertou investidores sobre a crise hídrica antes que ela chegasse ao ponto que chegou, tornando publica esta informação.

O princípio da solução ou prevenção de qualquer problema é o reconhecê-lo. Diversas ações poderiam ter sido tomadas para minimizar os efeitos da estiagem, algumas delas técnicas, outras administrativas, mas todas conhecidas e viáveis do ponto de vista executivo. Não nos cabe discutir os motivos que levaram à passividade das autoridades em relação a este problema, pois a raiz desta questão provavelmente reside em motivos políticos, coincidentes com o ano eleitoral. No entanto é possível discutir as falhas na gestão do problema, e refletir sobre o aprendizado que esta situação calamitosa que vivemos.

Neste momento sobra água no Espírito Santo, enquanto falta água no Rio de Janeiro e em São Paulo. Uma solução óbvia para escassez de água em algumas regiões é a uniformização da sua distribuição, que poderia ser obtida através da interligação dos sistemas de armazenamento. Isso já ocorre em alguns poucos casos, mas a ideia poderia se expandir para sistemas interestaduais, uma vez que a água é, em última análise e segundo algumas interpretações jurídicas, um recurso federal. Para manter este sistema funcionando de maneira justa e adequada seria necessário um sistema de controle eficiente, que gerenciaria a disponibilidade do recurso nas áreas em que ele é mais necessário, considerando a sua disponibilidade e consumo.

Outra solução técnica é o melhor aproveitamento da água de reuso. Já existe tecnologia suficiente para tratar a água para que ela se torne potável e adequada para o consumo humano, sendo necessária a implantação de estações de tratamento e o controle da eficácia destas estações. A cidade de Campinas iniciou (agora) obras para a construção de um sistema de tratamento que permitirá este tipo de reaproveitamento, mas a previsão de duração da obra é de 18 meses.

Apesar das soluções técnicas, o comportamento da população também é decisivo nesta equação, uma vez que o balanço hídrico considera a oferta e o consumo de recursos. Há dados que nos fazem supor que o consumo de água em São Paulo aumentará aproximadamente 40% até 2030. Se isso se confirmar, mesmo que o sistema de reservatórios esteja completo, não haverá volume que supra estes níveis de consumo. Desta forma, é preciso tomar ações que visem a mudança de comportamento do consumidor, disseminando e fomentando o uso racional do recurso, mesmo em tempos de abundância.

Atualmente já vivemos a crise e soluções emergenciais estão sendo tomadas. Cedo ou tarde vai voltar a chover, e os reservatórios provavelmente ficarão cheios novamente. Resta saber qual será o nosso aprendizado a partir desta experiência. O nosso sistema de abastecimento estará preparado para novos períodos de crise? O nosso comportamento se adequará à nova realidade ou continuaremos esgotando os recursos disponíveis como nuvens de gafanhotos devorando uma plantação? Quais políticas públicas serão adotadas para fazer com que esse equilíbrio volte a se restabelecer e se mantenha de maneira perene? Até quando os interesses políticos serão mais importantes do que os interesses da sociedade? O elefante está na sala, e as respostas a estas perguntas são difíceis e inconvenientes, mas são essenciais entender e solucionar definitivamente este grave problema.



Gostou? compartilhe!