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O Setor Elétrico e o Meio Ambiente

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O Setor Elétrico e o Meio Ambiente

CARACTERÍSTICAS PREDOMINANTES NA AVALIAÇÃO E ATENUAÇÃO DOS ASPECTOS AMBIENTAIS

Quase todos os tipos de atividade que compõem o intrincado sistema econômico mundial têm potencial para gerar modificações significativas no meio ambiente. A essas modificações dá-se o nome de “impactos ambientais”, e as empresas ambientalmente corretas distinguem-se das demais justamente por identificar os possíveis impactos e aplicar controles que evitem ou, no pior dos cenários, diminuam a probabilidade de ocorrência destes impactos. Obviamente algumas organizações, pela natureza própria dos seus produtos, têm o potencial de interagir de maneira mais agressiva com o meio ambiente. Nesses casos, um sistema de gestão precisa ser implementado para impedir, sob qualquer hipótese, a ocorrência dos acidentes ambientais. Os exemplos mais óbvios são as empresas de mineração, produtos de origem florestal – como papel e celulose – entre outras.

O setor elétrico sempre se caracterizou pela intensa relação com os locais onde opera. Não tanto pelo produto fornecido, mas pelo simples fato de estar presente em um número muito grande de localidades. Por isso mesmo, as exigências regulatórias relacionadas a esse setor excedem o que vemos em outros tipos de serviços.

A abrangência dos possíveis impactos ambientais causados por essas empresas varia de acordo com escopo das atividades que realizam. Tipicamente, este escopo inclui a geração de energia, a sua transmissão, a sua distribuição e o atendimento ao cliente. Algumas organizações prestam também outros tipos de serviço, tais como manutenção de equipamentos de média e alta tensão, mas os aspectos ambientais relacionados a estes tipos de atividades possuem um caráter mais trivial, conquanto não possam ser desprezados.

A Geração de Energia

O processo de geração de energia elétrica a partir de outros tipos de energia (hidráulica, térmica, nuclear, eólica etc) é tão polêmico quanto importante no nosso país. As discussões sobre a melhor forma de obter a energia elétrica necessária para o desenvolvimento da indústria e para o atendimento à população passam, necessariamente, pelos riscos que envolvem cada modalidade de geração que se pretende utilizar. No Brasil, a maior parte da energia elétrica é gerada a partir das usinas hidrelétricas espalhadas pelos rios que permitem este tipo de instalação. Como todos sabemos, o arcabouço técnico que envolve uma usina hidrelétrica passa:

  • Por um reservatório de água, normalmente obtido através de uma barragem;
  • Por uma casa de força, onde são instaladas as turbinas, necessários para a conversão de energia cinética em energia elétrica;
  • Por subestações elevadoras, onde são instalados os transformadores elevadores onde a energia elétrica tem suas características transformadas para melhor transportá-la através das linhas de transmissão.

Os aspectos ambientais associados à geração de energia manifestam-se em dois momentos distintos, ambos cruciais para a garantia da preservação do ambiente que envolve o empreendimento: a construção da usina e a sua posterior operação.

Relacionados à construção da usina, destaca-se a necessidade de realização de Estudos de Impactos Ambientais (EIA) e o Relatório de Impactos ao Meio Ambiente (EIA/RIMA), necessários para a emissão da Licença Prévia de Instalação para empreendimentos potencialmente causadores de impactos ambientais. Nesse caso, a principal preocupação reside no impacto causado pela construção da barragem da usina. Dependendo da região onde é construída, uma barragem podem causar a inundação de dezenas de quilômetros quadrados, modificando completamente o ecossistema local e obrigando a empreendedora a estabelecer medidas compensatórias para o impacto causado. Essas medidas incluem o reflorestamento de outras áreas, a criação de espécies da fauna ameaçadas.

Outro tipo de modificação causada, e que nem sempre é considerada como deveria, é o impacto antrópico que aflige a população nas proximidades da usina. Além de ter a sua rotina modificada pela sua operação, sua fonte de subsistência e comércio pode ser também afetada. Ocorre que a operação de uma barragem exige a interrupção do fluxo de um rio. Esta interrupção modifica as características do curso d’água, altera a incidência e diversidade da ictiofauna local e desfigura a vegetação que circunda o empreendimento, provocando a necessidade de adaptação de hábitos simples da população, como, por exemplo, pescar.

Outro aspecto que não pode deixar de ser considerado no mapeamento dos riscos de uma usina hidrelétrica é a probabilidade vazamento vultoso, rompimento parcial ou colapso total da sua barragem. Diversos exemplos recentes mostram o descaso com que este aspecto ambiental foi tratado, não em usinas hidrelétricas, mas em outros tipos de barragem, com os quais pode ser estabelecido um paralelo aproximado. O controle deste tipo de impacto passa pelo controle das características da barragem na sua construção, o monitoramento constante da estabilidade das estruturas, o estabelecimento de planos de emergência eficazes, a simulação destes planos para garantir e testar a sua efetividade e a comunicação deste plano e das suas conseqüências à comunidade estabelecida jusante à barragem.

A Transmissão e Distribuição de Energia

A transmissão e distribuição de energia elétrica é o processo de transportar energia entre dois pontos. O transporte é realizado por linhas de transmissão de alta potência, geralmente usando corrente alternada, que de uma forma mais simples conecta uma usina ao consumidor.

As linhas de transmissão normalmente transportam a energia da usina geradora até estações avançadas de distribuição de energia, a partir das quais a energia é enviada até os pontos de consumo, como casas, hospitais, empresas, etc.

Neste processo, alguns aspectos despertam particularmente nossa atenção. Em linhas gerais, o principal problema ambiental é a convivência das linhas de transmissão e distribuição com a natureza e a comunidade. Essa convivência começa na instalação das torres de transmissão, das subestações, dos postes e de outras instalações necessárias. Já nesta etapa deve ser considerada a necessidade de licenças de instalação e operação ambientais, assim como os alvarás locais (cuja emissão e renovação é normalmente controlada pelas prefeituras).

Na instalação, a remoção da vegetação requer especial cuidado para que não sejam excedidos os valores autorizados pelo órgão ambiental, assim como a reposição da vegetação, caso sejam estabelecidas condicionantes para a autorização de desmate e operação.

A existência das imensas torres de transmissão também constitui fator de preocupação, uma vez que sua localização pode ser fonte de interrupção de rotas migratórias de animais selvagens.

Da mesma forma, os cabos, transformadores, capacitores e outros equipamentos podem constituir ameaça à fauna. Eventualmente desavisados pássaros e pequenos animais (como gambás, quatis e esquilos) podem servir-se destes equipamentos como poleiros, e assim provocar curtos-circuitos muito perigosos para a rede e fatais para os animais.

Outras possíveis consequências destes curtos-circuitos e de outras falhas no sistema de transmissão (corrosão, descargas atmosféricas, má conservação) são os incêndios florestais ou em outras áreas de vegetação. Normalmente muito difíceis de serem combatidos, estes sinistros são especialmente devastadores, pois implicam na destruição de todos os ecossistemas por eles atingidos, além do imenso potencial de atingirem áreas habitadas por pessoas, quando não controlados em tempo.

Com relação à distribuição da energia, a convivência das linhas adquire um caráter diferente quando concentradas em áreas urbanas. Passa a ser crucial proteger a rede de atos de vandalismo, animais domésticos, pipas, balões e outros agentes que possam interferir na segurança do sistema. Uma característica interessante da convivência das linhas de distribuição com áreas urbanas é a necessidade de identificação dos requisitos legais municipais aplicados às linhas. Interessante porque é normalmente trabalhoso manter este levantamento atualizado.

Habitualmente a prestação deste tipo de serviço ocorre por meio de grandes organizações, já acostumadas a mapear, prevenir, controlar e, quando aplicável, remediar os impactos ambientais associados às suas atividades. No entanto, é imperativo manter atualizado o seu sistema de gestão, identificando aspectos ambientais decorrentes de eventuais mudanças pelas quais os processos invariavelmente passam.

Flavio Oliveira – Sócio-diretor PM Analysis com mais de 20 anos de experiência em Sistemas de Gestão, CMC (Certified Management Consultant) e autor do livro "Ecoeficiência – A Gestão do Valor Ambiental”, que trata sobre metodologia para aproveitamento econômico das práticas da gestão ambiental. 

flavio.oliveira@pmanalysis.com



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