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Certificação em Apenas 1 Mês - Extrema eficiência ou charlatanismo?

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Certificação em Apenas 1 Mês - Extrema eficiência ou charlatanismo?

 

Eu sou, sempre fui e sempre serei um entusiasta da tecnologia. Apesar de nem sempre ser capaz de acompanhar todas as novidades, entendo perfeitamente os benefícios que a evolução tecnológica traz para o cotidiano pessoal e empresarial. Acredito sinceramente que a reinvenção continuada é essencial para a competitividade e sobrevivência dos negócios.
O tempo todo vemos surgir vários produtos e serviços que desafiam nosso comodismo e nos obrigam a repensar nosso modo de consumir, trabalhar e viver. Isso é maravilhoso, e fazer parte deste período revolucionário é um privilégio.


O mercado de consultoria também faz parte deste movimento, seja na implementação de soluções tecnológica para os nossos clientes, seja para revolucionar o próprio processo de assessoria, permitindo que o acesso e a gestão das informações venham sofrendo significativa transformação.
Várias empresas de consultoria, novas e consolidadas, vêm oferecendo assessoria online para implementação de sistemas de gestão. Em algumas delas o processo é todo conduzido por softwares montados no esquema de "perguntas e respostas", onde o cliente avança de fase na medida em que responde corretamente as perguntas. Sem conhecer a fundo este método, eu não me sinto à vontade para criticar o modelo em si. É bem provável que funcione em alguns casos, ou na maioria deles, é também é muito provável que essa solução seja a melhor para algumas destas empresas.


De qualquer modo, não é este o assunto que eu gostaria de discutir. Eu não quero correr o risco de parecer um mau competidor, mas o que tenho percebido através da agressiva estratégia de marketing adotada por consultorias deste tipo é que certas promessas feitas por elas são, para dizer o mínimo, muito difíceis de serem cumpridas.

 

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Prometer a devolução do dinheiro caso a empresa não seja certificada parece ser, mais do que qualquer outra coisa, uma avaliação subestimada do risco. Inúmeros fatores podem provocar o insucesso da certificação de um sistema de gestão, e o fato de um consultor assumir a responsabilidade por todas estas variáveis pode ser sintoma não apenas de uma estratégia comercial agressiva, mas também de desconhecimento do processo de certificação. Mas este é o menor dos problemas.


É possível encontrar também alguns cases de projetos de certificação em que o cliente foi certificado em prazos excessivamente curtos, incluindo um exemplo de certificação que ocorreu em apenas 37 dias. Mais uma vez, peço desculpas por não conhecer os detalhes do processo e mesmo assim me atrever a abordar o assunto, mas não há como não desconfiar do número. Eis os motivos da minha desconfiança:

 

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O processo de certificação conduzido pelo OCC (Organismo de Certificação Credenciado) é formado obrigatoriamente por 2 etapas (auditoria inicial e auditoria final de certificação, ou fases 1 e 2). A diferença máxima entre ambas etapas é de 90 dias (alguns OCC aceitam 180 dias) e a mínima recomendável é de 30 dias. Ou seja, somente neste processo já são consumidos 30 dias. É possível que o intervalo entre ambas as fazes seja reduzido, mas ainda assim não seria menor do que 1 ou 2 semanas.


Para ser auditado, um sistema deve demonstrar a sua capacidade de gestão, ou seja, um ciclo completo deve ser demonstrado. Este ciclo inclui a compilação de todos os dados, indicadores, análises críticas, auditorias, treinamentos, ações corretivas etc. Para que este ciclo seja avaliado, os OCCs recomendam um histórico mínimo de 90 dias. Há uma certa condescendência neste prazo (históricos mais curtos são aceitos em certos), mas as evidências mínimas de pelo menos 1 giro no ciclo são obrigatórias. Veja o caso dos Objetivos e Metas, que devem ser estabelecidos, planejados, monitorados, os resultados devem ser obtidos e analisados para demonstrar este ciclo. 
A auditoria interna é um requisito obrigatório de todas as normas de certificação. Apesar de não haver prazo mínimo entre uma fase outra, também é recomendável que haja tempo suficiente para tomada de ações corretivas de problemas eventualmente detectados. Recomenda-se aproximadamente 15 dias de intervalo entre a auditoria interna e a Fase 1.


Considerando todos estes prazos, temos um tempo mínimo, apenas para o ciclo de auditorias (sem considerar o tempo de implementação), de pelo menos 135 dias. É claro que pode haver variações entre os prazos e, sendo muito eficiente, é razoável pensar em 30 dias entre a auditoria interna e a Fase 2 de certificação. Ainda assim, numa visão extremamente otimista, e considerando que o sistema já estava implementado (o que reduz muito a importância da consultoria, tirando a legitimidade de usar um caso desses como propaganda) avaliamos o prazo como, no mínimo, o dobro do informado no case.


Na PM Analysis, no ano de 2019, conduzimos um processo de certificação extremamente enxuto, em uma empresa de pequeno porte, que durou, entre o diagnóstico e a recomendação para certificação, 60 dias. Este foi o projeto de certificação mais curto que já fizemos, contou com uma grande mobilização de recursos, tanto nosso quanto do cliente, e ainda assim durou quase o dobro do case que é objeto deste artigo!

Diante disso tudo, eu concluo que das três, uma: ou o tempo não foi de apenas 37 dias (informação inverídica), ou o sistema já estava implementado (a consultoria fez pouca diferença) ou o processo de certificação não seguiu os prazos regulamentares (idoneidade e independência duvidosas). Organismos de Certificação Credenciados sérios teriam dificuldade em aceitar a superficialidade de um sistema "criado" em tão pouco tempo. De um jeito ou de outro, a história é mal contada...


A atividade de consultoria é das que mais depende da credibilidade dos profissionais que a executam, e credibilidade se constrói ao longo de anos de conduta correta. Atitudes aventureiras, que colocam o sucesso comercial e financeiro como o fim que justifica todos os meios, contribuem para desvalorizar o trabalho e o profissional de consultoria.

 

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Mais uma vez não se trata, em hipótese alguma, de tecnofobia. O sol brilha para todos, e há espaço para diferentes modelos de negócios, que certamente encontrarão interessados nestas soluções. Este texto não é mais do que um alerta ao gestor incauto, que pode ser seduzido por promessas encantadoras e preços substancialmente mais baixos do que os de mercado. Procure referências reais, e não apenas vídeos comerciais belamente editados, que vendem um resultado que não depende apenas da consultoria e que, portanto, não pode ser prometido.
Estamos longe de parecermos o Reino da Dinamarca do Príncipe Hamlet (em vários sentidos), mas também aqui sentimos o cheiro de algo podre no ar...

 

Flavio Oliveira
flavio.oliveira@pmanalysis.com



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