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Crise Econômica: Desespero ou Aprendizado?

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Crise Econômica: Desespero ou Aprendizado?

Crise Econômica: Desespero ou Aprendizado?

 

COMO OS MOMENTOS DE TURBULÊNCIA INFLUENCIAM E EMPERRAM O SISTEMA DE GESTÃO DE UMA EMPRESA

 

Gerenciar uma empresa é muito fácil. Quando os fornecedores entregam produtos com qualidade e no prazo, quando os funcionários estão motivados e treinados para desempenharem suas tarefas, quando os equipamentos não quebram, quando os clientes estão satisfeitos e pagam em dia e quando o orçamento é faustoso e aparentemente ilimitado a empresa voa em céu de brigadeiro.


Nessas circunstâncias, quaisquer desvios de competência, de preparo ou até mesmo de caráter dos comandantes das organizações acabam sendo encobertos por resultados fabulosos. Eventuais erros e retrabalhos são absorvidos pelo lucro, que aumenta a cada dia. A pastagem é verde a o gado engorda a olhos vistos.


No entanto, quando qualquer uma dessas condições se desequilibra, a capacidade de decisão e o discernimento dos gestores dos respectivos processos são colocados à prova. É nesses momentos que um processo robusto de gerenciamento dos riscos faz falta. Sem dúvida os efeitos das tempestades que vez ou outra as organizações enfrentam seriam menos sentidos se estas gerenciassem os seus riscos (de todas as naturezas) de forma que os seus efeitos fossem minimizados.

 

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Contudo, uma vez que não é possível eliminar todos imprevistos, a serenidade passa a ser a qualidade que deveria ser mais valorizada nos gestores das empresas. As decisões deveriam ser pautadas também nas oportunidades que se apresentam, e não apenas nas ameaças que assombram o mercado. A matriz SWOT (Strengths/Weaknesses – Opportunities/Threats) é um orientador básico para a organização da tomada dessas decisões. Nunca a letra “O” do SWOT foi tão desprezada quanto atualmente. As oportunidades são simplesmente colocadas de lado caso elas tenham qualquer implicação em recursos financeiros adicionais à organização, mesmo que tais recursos se refiram a investimentos, e não custos ordinários.

 

 

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Os visionários se destacam dos demais ao entenderem que o momento de retração na atividade produtiva (observada em vários setores, mas não em todos) deve ser aproveitado para implantar todas aquelas mudanças que não são postas em prática nos momentos de produção máxima. Essas mudanças poderiam ser canalizadas para o aumento da eficiência do processo, por exemplo através de melhorias que proporcionem a redução dos refugos, dos retrabalhos e das reclamações de cliente. As seguintes características permitem o aproveitamento da situação para a melhoria da empresa:

 

  • A disponibilidade da mão de obra direta e indireta aumenta, permitindo o seu emprego em atividades de revisão das práticas existentes e implantação de novas práticas.

  • Há tempo para treinar os colaboradores nas práticas de gestão e em novas tecnologias, de forma a desenvolvê-los para os períodos de maior exigência.

  • A disponibilidade de equipamentos aumenta, na medida em que os mesmos podem passar um tempo maior fora de operação, sem que as consequências sejam sentidas na mesma proporção. 

  • Há mais tempo para a concepção dos projetos, pois a atenção dos profissionais está voltada para o desenvolvimento de novas tecnologias, e não na solução de problemas de produção.

  • Toda a cadeia produtiva tem o seu ritmo reduzido, incluindo os fornecedores. Todas as garantias de confiabilidade e desempenho que as organizações esperam de seus fornecedores se tornam viáveis quando os recursos desses parceiros são canalizados para a execução das melhorias necessárias para o atendimento do cliente.

  • Há um ambiente propício para a realização de testes, uma vez que as correções decorrentes das experiências malsucedidas podem ser realizadas com mais cuidados. Há mais oportunidades para errar e aperfeiçoar o sistema.

 

Os exemplos citados acima se referem oportunidades de melhoria em diversos campos de atuação, incluindo:

  • A mudança de práticas.

  • A revisão e implementação de procedimentos.

  • A implementação ou atualização de sistemas informatizados, incluindo aplicativos de gestão, ERPs etc.

  • A mudança e implementação de ferramentas de controle.

  • O salto tecnológico.

  • A substituição de equipamentos.

  • A mudança de comportamento.

 

Das principais oportunidades perdidas, destaca-se a redução drástica da quantidade de treinamentos que normalmente ocorrem. Habitualmente a primeira opção da lista de corte de custos está relacionada com as atividades de capacitação de pessoal, o que se configura na maior das contradições: um dos motivos mais evocados para o impedimento dos treinamentos é a impossibilidade de retirar os funcionários de suas atividades rotineiras, fator que desaparece nos períodos de produção em baixa. Que momento mais propício para essa atividade?


Vítimas da implacável “tesourada” no orçamento, as empresas de consultoria, durante as crises econômicas passam a serem convocadas, com raras exceções, apenas em vésperas de auditorias, prática que afeta sensivelmente a credibilidade do sistema perante as partes interessadas (todas elas, incluindo os clientes e colaboradores), aumentando o risco de resultados ruins nas auditorias e reduzindo a robustez do sistema de gestão.


Em outras ocasiões assistimos aos exageros nos cortes de custos. Há exemplos de empresas que pararam de atualizar suas normas técnicas, outras que abandonaram a revisão do atendimento aos requisitos legais, outras ainda que deixaram de calibrar os seus equipamentos de medição. São práticas extremamente arriscadas, que redundam em sério risco de fornecimento de produtos não conformes a seus clientes e de descumprimento da legislação. Sob o ponto de vista de certificação, essa é uma não conformidade caracterizada como grave (ou “maior”), que põe em risco a manutenção do certificado. Sob o ponto de vista de sustentabilidade, a empresa pode perder seus contratos (tão valiosos em períodos de crise) ou até mesmo ser fechada por organismos controladores.


Adicionalmente, de maneira absolutamente contraditória à interpretação lógica dos ambientes macro e microeconômico que se apresentam diante de nós, algumas empresas realizam cortes nos seus planos de marketing. Se o maior problema de uma empresa atuante no cenário tenso em que vivemos é a falta de pedidos, que atitude pode ser mais óbvia do que buscar novos clientes?

Sobre as minhas opiniões, a maioria dos leitores certamente dirá: mas e o dinheiro necessário pra tudo isso? De onde veem os recursos quando os clientes param de comprar e os bancos se recusam a oferecer empréstimos?
As minhas afirmações são colocadas a partir de alguns princípios básicos:

  • Nos momentos de crise todo o arsenal teórico estudado durante anos (melhoria contínua, competitividade, gestão por competências, planejamento estratégico etc.) deve ser posto em prática. Gerir a empresa em contraponto a tudo isso (corte irrestrito de custos) é jogar no lixo toda a teoria administrativa alicerçada em anos de experiência, inclusive testada em outras graves crises.

  • Muitas das demais empresas estão fazendo tais cortes de orçamento, reduzindo número de empregados, parando máquinas, cortando fornecedores e reduzindo os estoques de matéria prima e insumos. A retomada da produção para muitas dessas empresas será retardada pela inércia natural dos seus processos (por exemplo, o fornecimento de alguns materiais leva meses e a contratação de alguns tipos de colaboradores também leva tempo), o que abrirá espaço para as organizações que anteciparam a disponibilidade desses recursos e se preparam para o reinício. Não há dúvida de que assistiremos a mudança de posicionamento de diversas empresas quando os sinais da crise se dissiparem.

  • O colapso financeiro atual é provocado por um problema sanitário, mas também de confiança. A mesma onda de pessimismo que amplificou os seus efeitos deve ser minimizada por uma onda de otimismo de mesma magnitude.

  • Não é possível que todos percam na crise. O dinheiro sai de um lugar e vai para outro, o que significa que há oportunidade para todos. 

  • Cedo ou tarde a crise vai acabar, como todas as que vieram antes desta.

 

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Defender qualquer postura que desconsidere cortes de despesas na atual situação não passaria de retórica vazia, contudo, uma porção significativa dos motivos que levaram essa crise ao ponto em que chegamos é a falta de credibilidade e a iminência de que o mundo capitalista nunca mais será o mesmo depois dela. Isso é bem provável, no entanto é nosso papel impedir a propagação do alarmismo.

 

Que a crise é real, não resta dúvida, mas o otimismo em relação ao futuro e a visão progressista, que enxerga nas dificuldades a oportunidade de ocupar o espaço deixado por outros menos visionários, fará com que mais uma vez a seleção natural elimine as organizações aventureiras, baseadas no lucro imediatista e pouco sustentável, e reforçará a posição daquelas que, embora usem os seus recursos de maneira consciente, antes de qualquer coisa, os usam.

 

Nota : Este texto foi escrito e publicado em março de 2009. Para quem se lembra, este foi o momento mais desesperador da crise que começou no segundo semestre de 2008. O texto foi republicado em 2014 e novamente agora, em 2020. Eu não fiz nenhuma alteração para adaptá-lo à crise atual, e tenho quase certeza de que poderei guardá-lo para utilizá-lo muitas vezes no futuro (infelizmente). 

Flavio Oliveira
flavio.oliveira@pmanalysis.com

www.pmanalysis.com.br



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